Quinta-feira, 19 de Agosto de 2010

A invenção do sopro


meu amor,
esse rumor talvez seja um fogo a querer voar;
de costas para a escuridão, anoitecendo a partida,
só me resta agora um horizonte para dar,
e é tudo.

a feroz sombra do vento transparente,
esculpida em água e mordendo a solidão,
diz-me que no coração do dia tudo canta ainda;
um só grito bastaria
para coroar o sol húmido da primeira chuva inefável
onde a beleza se demora vagarosamente.

como se tivesse dado a beber o sublime até ao fim do alvorecer,
digo amo-te
e tudo permanece enlaçado à pele do chão,
sangrando nos pulsos do silêncio;

sem cessar olhando os fios das lágrimas,
espuma branca do adeus,
procuro mas não sei de que lado afluem
as inumeráveis harmonias do mundo
(um dia confidenciar-me-ás o trilho de volta da morte).

e eu de mão alada caminhando sobre as águas,
preso no intervalo da colina,
de tanto me doer a alegria do que resta,
segredo-te apenas um derradeiro abismoe ensino-te como se dá a invenção do sopro

Ricardo Gil Soeiro, Caligraphia do Espanto, Edições Húmus, 2010, pp. 73-74.

Choveu


o dia vai largo, quase transparente
tristemente abandonado pelo mar

choveu

não começou o mundo ainda

e eis que desce o pano:
trocaram-nos os papéis…
és tu quem acende o chão da noite
sou eu quem repete a canção adormecida, estranho ofício

o dia vai largo, e subitamente já não estremeço
contemplo o cenário inventado: sem futuro, desejante, inteiro

no dorso das nuvens tatuado, espreita um sereno nunca
as ruas sem memória, o fulgor da terra, o mudo mar amanhecendo
sem ruído, inclino o coração e a cidade é sem mistério
mordendo a pele da água e beijando o destino no cais da partida

quase transparente este dia que me visita sem aviso prévio
de orvalho vestido, à beira da alegria, avariando as roldanas do tempo
e sussurrando a hesitação do instante que logo recomeça
e é tão breve que a sombra arde em suas chamas

choveu e já não estremeço:
vem vento, dizem: mas, ainda assim, não começou o mundo
vagarosamente vem: é que basta dizeres este corpo em que te deitas
e jurares ao firmamento que em ti começa a neve ausente

não olhes agora e assina, a tinta permanente, a edição ne varietur
decerto tu saberias relatar o meu cv e cobrir o rosto com a limpeza da luz
ouve o rumor da chuva que ainda demora: um perdão de cada vez.
vem vento, dizem, e o dia vai largo, tão largo como o rio em que morreste

o cenário está completo:
a tristeza que em ti se despede não existe
e peço-te que em mim inventes um novo dia,
vamos trocar pela segunda vez os papéis que em sorte nos calharam
não receies, pois sei dos nomes que decoras e dos recados extraviados

já desceu o pano e o mundo tarda em iniciar

choveu

Ricardo Gil Soeiro, O alfabeto dos astros, Edium Editores, 2010, pp. 53-54.

Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Duende


Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

António Franco Alexandre, Duende (2002)